Arquivo por 'Aniversário de São Paulo'

Memorial da AL é símbolo de união para todos os povos

memorialSão 456 anos de história, de luta e muito trabalho. O dia 25 de janeiro marca o aniversário de São Paulo, a cidade das cidades e um dos principais centros globalizados do mundo. A data de sua fundação leva a todos, paulistanos ou não, a celebrar mais um ano de existência dessa metrópole que nunca para. E nessa comemoração sobram nomes de pessoas que empregaram todo esforço e talento em sua construção. Um deles é o do carioca Oscar Niemeyer.

Considerado um dos arquitetos mais influentes da arquitetura moderna, Niemeyer trouxe sua inspiração para São Paulo. Um estilo único e peculiar que pode ser conferido em suas principais obras espalhadas pela cidade, como é o caso do Memorial da América Latina. Localizado no bairro da Barra Funda, o complexo cultural foi construído a partir de um convite especialmente feito à época pelo governador Orestes Quércia a Niemeyer, que na hora aceitou o desafio.

brazil_7A partir da inovadora ideia de Quércia, a cidade de São Paulo – tão acostumada a aplicar concreto em pontes e viadutos – viu esse material dar forma a um dos principais centros agregadores de cultura do Brasil.

Desenvolvido sob a ótica conceitual do antropólogo Darcy Ribeiro, que defendia a união entre os diferentes povos, o Memorial foi idealizado com a missão de estreitar as relações culturais, econômicas, políticas e sociais entre Brasil e os demais países da América Latina. E seu objetivo inicial foi alcançado. Desde sua inauguração, em 18 de março de 1989, o Memorial da América Latina tem difundido a história da população latino-americana por meio de diversas exposições artísticas e culturais organizadas pelo Memorial.

“Confesso que o Memorial foi uma obra que fiz com muito empenho. E tenho muita recordação das pessoas com quem trabalhei naquela época. A ideia do Quércia em me chamar… ele foi muito gentil e atendeu todos os pedidos que fiz para a obra. Esse trabalho me deixa boas lembranças”, Oscar Niemeyer.

“São Paulo merecia um monumento à altura de seu povo. Por isso convidei pessoalmente nosso companheiro Niemeyer para desenvolver o projeto. E o resultado está à disposição de todos paulistanos, paulistas, brasileiros e nossos amigos latinos. Um espaço de união para todos os povos”, Orestes Quércia.

 

A Mão

mãoA escultura Mão, de Oscar Niemeyer, é a obra que mais chama a atenção dentro do Memorial. Medindo sete metros de altura, a palma traz em sua palma o mapa do oprimido subcontinente americano em baixo-relevo, pintado em esmalte sintético vermelho, o que lembra o escorrer de sangue. O monumento pode ser compreendido a partir das definições dos principais responsáveis pela sua construção:

“O sentimento da unidade latino-americana é o limiar de um novo tempo. O esforço da organização para eliminar a opressão dos poderosos e construir um destino maior e mais justo é o compromisso solene de todos nós”, Orestes Quércia.

“Suor, sangue e pobreza marcaram a história desta América Latina tão desarticulada e oprimida. Agora urge reajustá-la num monobloco intocável, capaz de fazê-la independente e feliz”, Oscar Niemeyer.

Grandeza do Monumento partiu da iniciativa tão bem concebida por Quércia, diz Niemeyer

As memórias de Niemeyer

As memórias de Niemeyer

Foi sozinho, folheando alguns livros e relembrando histórias que Oscar Niemeyer decidiu escrever um livro de memórias. Em As Curvas do Tempo, o arquiteto conta diversas passagens ao longo de sua carreira e dedica páginas especiais para contar suas impressões em relação à construção do Memorial. O trecho segue abaixo:

(…) Quando surgiu a idéia de se construir o Memorial da América Latina, em São Paulo, e me convidaram para projetá-lo, senti logo como seria importante para mim colaborar numa obra dessa natureza. Um apelo, uma mensagem de fé e solidariedade a todos os povos latino-americanos, convocando-os para que juntos, solitários, trocando experiências, lutassem melhor pelas reivindicações deste continente tão esquecido e ameaçado.

E lá está o Memorial já construído, todo branco, todo feito de técnica e fantasia, com suas vigas de 90 e 70 metros, suas finas e curvas placas de concreto, belo e monumental como exige a grandeza dessa iniciativa tão bem concebida por Orestes Quércia.

 

Durante meses acompanhei atento sua construção. A obra me emocionava. Dera-lhe toda a minha dedicação, mas alguma coisa ainda faltava, alguma coisa que me integrasse no sentido político do memorial, para mim mais importante do que sua arquitetura.

Croqui original de Niemeyer
Croqui original de Niemeyer

E desenhei aquela grande mão de concreto, espalmada, com os dedos abertos em desespero, representando a América Latina, com o sangue a escorrer até o punho. Para explicar minha escultura escrevi: “Suor, sangue e pobreza marcaram a história desta América latina tão desarticulada e oprimida. Agora urge reajustá-la, uni-la, transformá-la num monobloco intocável, capaz de fazê-la independente e feliz”.

E a mão foi construída com seus sete metros de altura. Não representa uma provocação, mas uma denúncia e uma advertência. Lembra um passado de sombras e um futuro coberto de dúvidas e esperanças. E estas agora transformadas em sangue e revolta, com os Estados Unidos a invadirem o Panamá. Uma nação pequena e desprotegida, um crime que deve provocar protesto de todos os países que se dizem democracias, de todos os homens que se dizem democratas, defensores dos povos oprimidos, da justiça e da liberdade.

Por outro lado, as razões apresentadas pelo governo dos Estados Unidos – defesa da democracia – tornaram-se ridículas ao lembrarmos como deliberadamente, a esqueceram, ao apoiarem, durante anos, as ditaduras de América Latina.

Cumpre reagir. Cumpre protestar. Cumpre não aceitar essa intervenção criminosa na nossa América latina explorada e ofendida.

E a grande mão de concreto, que é o meu protesto antecipado, assume outra dimensão. Já não é uma simples escultura, mas um apelo para os que visitam o Memorial sentirem o drama que vivem nossos irmãos deste continente, ainda pobres, ainda subdesenvolvidos, mas já conscientes dos seus direitos, das suas angústias e esperanças. (…)